Maternal
A maternidade é uma caixa de caos
É solitária, dolorida, desesperançosa
Eu sinto tanto pelas mulheres que não tiveram companhia
Sinto pelas que foram deixadas em suas vulnerabilidades
As que receberam sermões duros e ameaças de abandono
As que foram realmente deixadas
Que tiveram que continuar entregando como antes
As que não foram acolhidas pelo sistema de saúde
As que receberam comparações
Que foram ignoradas, rejeitadas em suas queixas
As que sentiram dores que não puderam tratar
Que se sentiram rasgadas por dentro e por fora
As que foram deixadas no escuro amamentando
Enquanto todos seguiam a vida normalmente
As que foram levadas além de seus limites físicos e emocionais
As que tiveram que suportar e implorar pra serem atendidas em suas necessidades
Que foram deixadas sozinhas em momentos de dor
As que não foram acolhidas, que ficaram exaustas e sem forças
As que foram atropeladas por quem esperava que elas mantivessem o ritmo
As que tiveram sua vulnerabilidade exposta a todos e mesmo assim desrespeitadas
As que foram usadas para o prazer de terceiros
E logo depois deixadas com seus desconfortos físicos
As que receberam cada vez menos carinho, menos olhares
As que passaram a gestação ansiosas e preocupadas com o futuro
As que ficaram perdidas, sem condições de sair e encontrar a paz
Que foram incompreendidas em sua sensibilidade hormonal
As que ficaram em frangalhos após o parto
E tiveram suas mãos largadas, deixadas pra dormir sem aconchego
As que esperavam horas e horas por um afeto
E no fim do dia dormiam acariciando o próprio ventre
Que ouviram comentários machistas e ameaçadores
Que foram cobradas pra serem fortes independente de qualquer condição
Que assistiram visitantes turistando em suas casas
Divertindo-se, conversando e pensando em si mesmos mas nunca nelas
A maternidade te coloca em um eixo solitário
Depender de você e amar você são coisas distintas
A vulnerabilidade dói e fere corações livres
Aprender a confiar em quem nunca cultivou sua confiança
Frustrar-se com quem prometeu tudo mas não entregou nada
É como se matar em essência
No fundo, quem é livre sabe que isso terá um preço
Porque é assim que as pessoas são
A maioria é egoísta e te resume em sua fragilidade
Quanto mais você precisa delas, maior a dívida
Quanto mais você solicita, mais insuportável você se torna pra elas
E a dívida para algumas é caríssima
Após morrer em essência você morre em orgulho
A maternidade te torna um nada enquanto você na verdade é tudo
Tudo o que a maioria, principalmente os frágeis da terra, não conseguem reconhecer
A porta do céu na terra, recebendo o pior tratamento enquanto deveria ser a prioridade em atenção
Penso que no fundo fui ouvida...
Começo a experimentar a morte mais profunda
Na verdade eu deveria ter pedido o fim de tudo
Existem inúmeras formas de morrer
E tenho conhecido cada uma delas
Comentários
Postar um comentário