Alma

Quem me conhece bem, sabe:

sou pura intensidade — e por vezes, me afogo.

Já sequei minhas fontes, já curei muitas feridas.
Por fora, calmaria; por dentro, um vulcão.
Já virei noites e dias, sentindo demais por sentir tanto,
pedindo minha extinção, por não aguentar mais.

Até que nasce outro dia
e a luz invade minha escuridão não percebida.
A dor me abraça, ressentida,
e o cansaço me rouba a alegria.

Resta-me a apatia e um chão
por onde piso como quem pisa em ovos,
desculpando-me por, há poucas horas,
ter rejeitado tanto a vida.

Que a culpa não me castigue nunca mais
quando a sombra alcançar meu espírito,
sobrecarregar meu peito e pôr-me em fuga,
cuspindo-me na tosse seca de um respirar
cheio de desprezo.

Me renasço por dentro
e, nos intervalos do cansaço, eu o vejo:
minha alma está nos braços do meu amado.

Ela não suporta a dor; ela se vai.
E em devaneios, brinca docemente com serafins,
enquanto, às margens da loucura,
meu espírito carrega a noite inteira seus tormentos.

Debate-se.
Guerreia uma batalha feroz por alívio e paz.
Mas a alma…
Ela está bem acolhida.

Isso me faz resistir.
O amor é a resistência, a âncora, o caminho.
Sempre parece que não vou conseguir —
mas até hoje estou aqui.

Mais um dia,
mais uma alegria,
mais um respiro.

Uma ousadia brincando com a fantasia.
Uma arte na voz, nos dedos, no corpo:
os movimentos, os olhares, as canções.

Tudo é enfeite numa vida que quer realmente enxergar.
A realidade e a idealidade são primas brigadas —
antes melhores amigas, hoje, duas amarguradas.

Todas as caretas no meu rosto escancarado
são devaneios de uma alma que sente extremos coerentes:
versões e inteiros, curiosa e sacana,
mais do que deveria, exatamente como precisa.

Eu vou marcar os mundos, perder meus pedaços infinitos,
reinventar minhas mortes e dançar sobre meus corpos.
Renascer. Enlouquecer. Recomeçar.

Só temo não temer mais nada.
Isso é bom ou mau?
A única certeza é:
quando eu partir, não irei de verdade.

Pé na estrada — grandes coisas, lindas e absurdas, me aguardam.
Quanto mais avanço, mais me conheço:
mais vida nos poros, mais morte no meu templo,
mais quedas, mais voos, mais dor, mais amor,
mais angústia, mais paixão, mais conquista, mais emoção.

É só tudo isso que espero...
Antes arte do que mártir.
Não há outra forma de ser quem sou.

B'gio
11/07/2025



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