quando a transparência me torna invisível
Eu sei que sempre me torno invisível
E realmente é assim que busco ser
Uma miragem, uma doce ilusão
Eu não sou vida real, sou um doce pesadelo
Não tenho pressa pra voltar
Pois não tenho lar
Tenho mortes que busco ressuscitar
E felinos que me aguardam amorosamente
Minha pressa é de viver
Porque quero gastar rapidamente
Todo ar que me falta pra poder retornar
A casa da minha verdadeira família
Mas convivo com minha melancolia todo dia
Minha dor persistente e estranha
Minha voz interna, maior companhia
Meu lugar desconhecido pra onde quero tanto voltar
Mas aqui sou miragem, não estou viva
Chegou a hora de me esforçar...
Me dê um gole de vida e olhares vagos
Desaprovando toda a minha incapacidade
De ser, de sorrir, de sentir, de amar
De colorir dias cinzas como sempre fiz
Estou no abismo novamente
Dessa vez, novamente, ninguém notou
Mas eu senti a queda brusca
A injustiça no amor é como um brasão
Levantado contra o sol que me cega
É quando me perco e desnorteio
Me acidento e morro por dentro
Não sei o que pode ser forte o bastante para me ressuscitar
Se nem o sangue, nem o criador, nem o acusador me respeitam
Empurram minha alma moribunda sobre a terra
Pra caminhar sobre as feridas e sangrar todos os dias
Quem na vida seria bálsamo pra me fazer esquecer?
Se ao primeiro gole de êxtase me lançam no outro extremo
Sob luz de holofote me apontam nua em geada escura, me sinto lua
Se tornam o augoz de toda a verdade que transpareço
Fazendo pouco caso do meu doce, amargo e profundo amor
Me cobram coisas vãs, me tiram do sério
Me vestem de negro, me desejam por inteiro e sugam meus sonhos
Cansam minha entrega, sacodem meus anseios pelo braço
Me fazem engolir o choro, atropelam meu cansaço
E perdida me encontro ali de novo, em seus abraços
Com um leve sorriso empolgado
Como quem diz: 'já passou, vamos deixar isso de lado?'
A exaustão me desnorteia é um descompasso
Eu e meus cabelos embaraçados
Não reajo, nem sinto, nem calo
Apenas persisto em perdão e assisto diante de mim
Os amores sobrepondo seus desejos sobre os meus sem os conhecer
Deve ser muito simples me atropelar
Sou como uma viciada no meio da rua
Em busca do gole de vida pra me embriagar
Poder sorrir e ser qualquer coisa
Eu tirei todos da alma e fiquei vazia
Mas vazio é bom porque não me destrói
Vazio apenas me humilha, é um narcisista interno
Me lembrando todo dia que sou incapaz
Que sou faminta e que não tenho família
Que os que coloquei na minha alma destruíram tudo ali
Sorte de quem encontrou leais na vida e pôde chama-los família
Eu encontrei guerras e juízes que viviam me atacando
Não me deixaram saborear a paz duradoura e logo espanaram
Não encontro descanso, não posso aquietar
Restou desistir dessa vida, logo entristeço e busco isolamento
É um cansaço extremo por tanta ferida
Na verdade é o perdão que me esgota...
Perceber que logo serei ferida novamente e terei que perdoar
Pra ser menos insuportável a acusação do vazio
O pior é que ninguém me percebe apagar
O corpo fica e a alma se vai...
E ainda assim quem diz amar
Acredita me encontrar em meu olhar
Eu não estou mais lá, mas é sempre assim
O cinza retorna e a tristeza brota
Volta a chover por dentro e adoeço
Apodrecendo lentamente sem querer mais nada
Nem lar, nem sonhar, nem amar
É um esforço que me custa a alma
E essa está acabada depois de tanto sangrar
A sensibilidade extrema é uma velha amiga
Minha sutileza é gentil e amorosa tanto quanto a minha fúria
Eu só queria ser acolhida...
Mas me contento em ser sempre invisível.
B'gio
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