Chapeuzinho Vermelho

(Beatriz Giomarelli)


Certo dia, em uma pequena aldeia, longe da cidade, nasceu uma menina. Sua mãe era camponesa e seu pai, hora era caçador, hora trabalhava junto aos outros lenhadores do local.
Sua mãe era uma mulher atordoada, muitos a acusavam por bruxaria, por viver no bosque, colhendo ervas e frutos. Era uma mulher sombria e vivia de cara fechada. Mal sabiam que dentro de seu lar sofria agressões por seu marido.
Enquanto a menina crescia, ganhava uma beleza sem igual, sempre saia durante a manhã em busca de ervas, frutos e flores do campo, mas sua mãe lhe proibira de entrar no bosque, dizia que era muito perigoso devido aos seres estranhos que viviam por lá.
Todo final de tarde, quando retornava a casa, aguardava do lado de fora sentada sob a janela esperando seus pais terminarem a discussão. Quando os ânimos se acalmavam, ela entrava e antes de dormir orava para que seu pai fosse embora e deixasse em paz suas vidas.
Um dia, ao retornar de seu passeio, notou que a casa se encontrava muito silenciosa e escura. Entrando com cautela e medo, sua mãe lhe chamou baixinho no quarto:
- Psiu, psiu! Minha filha venha até aqui, rápido!
Quando a menina entrou no quarto escuro, deparou-se com um cheiro forte de ferro:
- Mãe o que está acontecendo? Por que todas as luzes estão apagadas e a senhora está deitada no chão? Está ferida? Que cheiro é esse? Isto é sangue? Minha nossa! Onde está o pai?
- Minha filha, fale baixo... Seu pai saiu, mas volta logo. Preste atenção! Pegue a capa vermelha que costurei pra você, está embaixo do colchão. Atravesse o bosque, não fale com ninguém, não escute ninguém, apenas siga as rosas roxas até o outro lado do bosque. Quando encontrar o rio, saberá que chegou, procure por sua avó e lhe peça a “erva-sábia”, ela saberá do que se trata, traga-a para mim... Agora vá, minha filha, eu a amo muito! Corra e não pare! Vá, vá, vá!
A menina vestiu a capa e como sua mãe lhe ordenará saiu correndo em direção ao bosque. De repente, foi interrompida violentamente por seu pai que estava bêbado e segurava um pedaço de pau:
- Aonde pensa que vai, sua bastarda? – (retirando sua capa)
- Solte-me! Eu preciso ir... Por favor!
O homem furioso a lançou contra o chão e lhe deu uma paulada nas costas. Contorcendo-se no chão, a menina puxou sua capa, vestiu sua touca e começou a rastejar o mais rápido que conseguiu para fugir e o homem ficando para trás gargalhava:
- Vá! Corra sua bastarda e filha do demônio, antes que eu a perfure com a minha vara!
Entrando no bosque, a garota chorava desesperada e não conseguia definir se suas lágrimas eram pela dor da agressão ou das palavras amargas que ouvira de seu pai. Correu como se fizesse parte da terra que pisava e logo se encontrou furiosa por todo o silêncio perturbado, atordoado, amordaçado que vivera em sua vida até ali. Por que toda aquela raiva? Por que toda gritaria enquanto ela procurava por afeto e a paz em seu lar? Sem que percebesse, seu corpo se curvou no chão e seu cansaço pesou.
A noite fria se fez e deitada entre as plantas do bosque, sentiu seu corpo congelando, mas não retinha forças para seguir em frente. A ferida em suas costas ardia feito fogo e nem lágrimas caíam mais, nem o medo a açoitava. Os animais noturnos começavam com suas sinfonias e tudo parecia assombrado, a garota apenas pensava em sua pobre mãe e se encorajava a continuar.
De olhos fechados, o tempo passava, quando os abriu deu de cara com um ser em sua frente, mais parecia um fantasma que um humano. Ele se aproximava e fazia uma boca redonda, com dentes pontudos que sugava como se quisesse a consumir. A menina tremia de medo e ficou imóvel, preferiu fechar os olhos e abri-los novamente, acreditando ser um pesadelo. Assim que o fez, notou que não era um pesadelo e então gritou o mais alto que pôde, arrastando-se pra trás tentando fugir.
A criatura vinha em sua direção e, pronta para devorar a garota, foi atingida por algo que pulou sobre ela. E as duas criaturas saíram disputando, rosnados e murmúrios, as folhas secas do chão aguçavam a direção na batalha.
Então, depois de muito barulho e vulto, o silêncio reinou e um uivo muito alto retrocedeu a calmaria, em instantes muitos outros seres se aproximaram, e a menina os reconheceu, sentindo-se amedrontada como uma caça. Animais com os flancos finos, ossos e músculos salientes, com olhos brilhantes como brasas... Sim! Os lobos, encantadores e apavorantes, os guardiões do bosque.
Um deles, o líder da alcatéia, se aproximou lentamente da menina, que tremia e engolia a seco sentada no chão, ele se inclinou em sua direção, enquanto os outros se aproximavam lentamente. A menina sem entender por que seu coração se acalmava, encorajou-se e estendeu sua mão pra tocar o lobo que se aproximava curvado ao encontro do toque.
Sentindo-se protegida, acariciava o lobo e sorria enquanto ele se deitava em seus pés e lhes dava a barriga pra coçar. Os outros lobos se aproximaram e foram recebendo carinho à medida que se inclinavam perto da menina. Um deles farejou e lambeu sua ferida, outros retiraram sua capa vermelha e a estraçalharam como se estivessem brincando. Todos eles se aninharam para aquecê-la e ali repousou por mais alguns instantes para em breve seguir sua caminhada.
Após alguns instantes, um dos lobos lhe acordou com lambidas no rosto, abrindo os olhos notou que ainda era noite, todos já estavam de pé e sua ferida não ardia mais. O líder da alcatéia se aproximou e carregava na boca uma rosa roxa, entregou-a nas mãos da menina que chorava e sorria emocionada com tamanho afeto nunca recebido em sua vida inteira, além de sua mãe. A menina se pôs de pé e seguiu a alcatéia.
No caminho, eles cuidavam dela, atentos para que não pisasse em nenhuma armadilha e passo a passo lhe traziam mais uma rosa roxa. A menina juntou doze* rosas roxas, fazendo um buque.
O sol nascia e a menina, finalmente, encontrou o rio e do outro lado, a casa de sua avó. Seguindo os lobos, atravessou o rio por uma ponte envelhecida de madeira. Aproximou-se da casa e batendo na porta chamou:
- Vovó! Sou eu, sua neta, abra pra mim.
Ninguém aparecia e a casa permanecia em silêncio, forçou a maçaneta e notou que a porta estava aberta:
- Vovó!? A senhora está aí? Estou entrando... – (entrou cautelosamente)
A casa estava empoeirada, mas o forno estava aceso. Vigiando os cantos da casa, escutou a porta de entrada bater e voltou correndo para ver quem era:
- Menina! O que está fazendo aqui!? Vá embora para sua casa agora! Não me diga que atravessou o bosque! Você desobedeceu a sua mãe!
A avó estava com seus cabelos brancos bagunçados, magra e com olhos arregalados. Aparentava alguém muito doente.
- Vovó escute! É muito import...
- Não sabe o perigo que corre passando por este bosque, eu passei por ele... Ele é terrível! Existem muitos seres maldosos! –
A velha fechava todas as cortinas, andava depressa por toda a casa e desviava seu olhar como se lembrasse de situações vividas e temidas. A garota a seguia desesperada tentando ser ouvida.
- Vovó está tudo bem, me escute é muito importante!
- Não vê o que me aconteceu? Olhe para mim! – segurando a menina pelos braços e chacoalhando-a desesperadamente.
- Chega! – (gritou a menina se afastando bruscamente). Sente-se ali, preciso que a senhora se concentre e me escute!
A avó, impactada com a atitude, sentou no sofá e olhou pra menina:
- A mamãe esta doente, precisa da senhora, pediu-me para vir aqui lhe pedir uma erva... A “erva-sábia”, disse que a senhora saberia do que se tratava.
- Não... O que esta acontecendo? Minha filha... – (suas feições caíram e o peso de seu rosto se perdeu pelo espaço em que se encontravam, seus olhos diminuíram e ela parecia mais consciente).
A velha senhora se levantou sem dizer uma palavra e de dentro da gaveta da estante na sala, retirou uma caixinha preta amarrada com laços vermelhos. Entregou a caixinha para sua neta e a abraçou com doçura:
- Boa sorte, minha pequena!
- Diga-me para que serve esta erva? – (questionou a menina enquanto sua avó se virava para apagar o forno).
- Não posso te dizer, estou abismada. Como foi que você atravessou o bosque?
A menina se dirigiu à janela e puxou uma fresta da cortina:
- Veja vovó, os lobos me esperam do outro lado da ponte. Eles me trouxeram até aqui! Cuidaram de mim.
- Não pode ser...  Vá pra casa minha querida, você saberá o que fazer com esta erva.  Sua mãe te espera.
A menina se despediu de sua avó, prometeu ir vê-la novamente depois que tudo se resolvesse, atravessou a ponte e seguiu os lobos pelo bosque até sua casa.
Achando que todos iriam embora, notou que o líder da alcatéia a seguia ainda pelo campo:
- Qual é o seu problema? Não pode me seguir até em casa! Vá, volte para os outros, vá!
O lobo sentou e a olhou fixo. Seu coração apertou e tudo se esclareceu. Agora, ela sabia o que devia ser feito e sabia por que o lobo estava ali, então se virou e continuou caminhando até sua casa.
Entrando em casa, correu para o quarto, sua mãe estava deitada na cama, pálida e mal cuidada:
- Mãe! – (abraçou-a com todo carinho).
- Minha filha! Estava tão preocupada! Como você está? Encontrou sua avó? E sua capa, onde está? – (acariciava sua menina com toda atenção).
- Não se preocupe mãe...  Estou bem...
- Conseguiu o que lhe pedi?
- Sim, aqui está! – (mostrando a caixinha preta)
- Certo, me ajude aqui!
Descobrindo sua mãe notou que havia uma ferida terrivelmente infeccionada, a mulher ardia em febre e não conseguia se mexer direito:
- Esfregue a erva sobre a ferida o mais rápido que puder até que ela se desfaça... – (pediu a mãe)
A menina assim o fez, a pobre mulher gritava de dor, o sangue jorrava sujando a cama e as mãos da menina. A dor foi tão intensa que a mãe desmaiou. Quando a erva se desfez a menina parou:
- Então você voltou pro papai? – (ironizou o pai)
Seu pai espionava na porta do quarto, segurou a menina pelos braços e a arrastou pela casa até a sala, lançou-a no sofá e abriu a cinta.
De repente, um rosnado alto e forte quebrou sua ação. O lobo mostrava os dentes com fúria e paixão. A menina escondeu-se nos próprios braços. E o homem, rapidamente puxou sua espingarda encostada no sofá  mirando-a contra o lobo. Assim que foi puxar o gatilho, a menina lhe empurrou com força pro chão, pulou seu corpo esparramado no chão e abriu a porta para que o lobo fugisse. O pai furioso se levantou, acertou um murro no rosto da garota que se lastimou no chão, e saiu em busca do lobo com sua espingarda.
A menina deitou-se com sua mãe e ali adormeceu triste, desolada e atenta. A noite se foi e a agonia aumentou assim que o sol nasceu, pois o pai não retornara até então. 
Dias foram passando e o pai não retornava. A mãe foi se recuperando aos poucos, a ferida que antes parecia incurável pelo seu estado, foi se fechando e cicatrizando. A paz reinava no lar e ambas sabiam que esta paz poderia ser quebrada caso o homem retornasse pra casa. De certo modo, ambas oravam para que ele não voltasse nunca mais.
Alguns meses passaram e a alegria ressurgiu na casa.
Certo dia, no fim da tarde, a menina costurava uma capa vermelha, observando o campo. Logo foi impressionada pela miragem que surgia, o líder da alcatéia vinha em direção à sua casa. Ela largou a costura de lado e saiu correndo ao seu encontro.
Chegando perto de seu amado lobo, ele a olhou com ternura e se inclinou. A menina abaixou lentamente e chorando tocou seu pelo. Acariciou e o abraçou e ali permaneceram por horas e horas.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Apocalipse

A verdade que eles negam

Majestade