Sintético

Humanos e sua mania de sintetizar sentimentos
Uma variação enorme de sentimentos 
Percorrem o olhar, o coração acelerado 
As pupilas dilatadas, a mente em colapso
Cada milésimo de segundo
Carrega uma porção de sentir
Transmutando entre densidades variadas
Transitando por entre as dores do passado
Com a culpa, com os aprendizados
É um desaguar sem fim
Me tornei tão boa que mal percebi a paixão do meu ego
E então quando me virei, dancei por frações de segundos 
Eu tive que fugir, correr e respirar fundo 
Encarar o passado, ressentir, reencontrar 
Assumir o que sinto e confrontar o presente 
Entender tudo, constatar:
"Há muita violência aqui... O passado é o meu lar"
Quando o louco grita, estrapola em ações 
Prendendo-me entre seus dentes serrados
Com a força dos monstros indomados do seu circo
Eu corro pra lá, com o coração acelerado 
O passado me abraça e pergunta:
"Por que insiste em procurar a excepcionalidade 
em meros acasos adoentados?"
De fato, salvar o louco é perigoso 
Afinal, loucura com loucura se paga
Por isso estou toda cortada e violentada 
Por fora e por dentro, na alma
Mas permaneço amena, serena e tranquila 
Melancólica, profundamente depressiva 
Sorrindo por boas ocasiões da vida
Reflexiva com as escolhas que fiz
Não aprendi a amar a dor, aprendi a senti-la
Sonho com minhas mãos flácidas 
Esticadas ao encontro das suas 
Não pude viver com o passado
Não pude voar com o pássaro
Mas espero morrer em sua companhia 
O fim sempre é melhor que o início 
E ele ainda não aconteceu 
Há anos viajo pelo submundo
Dormi em praças, hospitais e hospedarias 
Recebi péssimas e boas notícias 
Me especializei em "faça o que tem que ser feito e viva"
Domei minhas emoções 
Fiz da selvageria um modelo de vida e justiça 
Aprendi a jogar o jogo
Mas é tenebroso viver assim
Tão tensa, sem onde repousar a cabeça 
Ter sempre que dar conta de mim 
Tratar com gentileza quem pisoteou minha fêmea 
Contar todos os dias o tempo certo de cada medicamento 
Viver drogada pra não viciar flertar com a morte 
Silenciar desejos mas ver minha princesa em sonho
Eu não tenho tribo, tenho teias
Protegida e parcialmente validada
Fria, selvagem, idônea 
Não vejo a hora de voltar pra casa.


B'gio




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