Mermaid
Hoje vou contar como é ser só...
Na tenra idade lançada em poço d'água, onde fui afogada incontáveis vezes, tornei-me sereia... E cantei.
Perguntaram-me, "que fazes aí? Saia e vá explorar o mundo!". É trabalhoso explicar pra mim mesma o porquê, imagine para todos esses visitantes cheios de entusiasmo e compaixão. Eles pensam estar apaixonados mas na verdade estão fascinados pelo canto magnífico e tórrido.
Já as almas serenas ficam, apreciam a força e integridade, admiram tudo por aqui mas não conseguem mergulhar. Vão e retornam, inúmeras vezes, trazendo afagos, presentes e abraços, algumas histórias e estórias interessantes do dia-a-dia. Uma amizade telepática e perspicaz!
Eu compreendo e as amo tanto!
O dia parece noite porque não há luz quando se mergulha mas o instinto se aperfeiçoa e sempre pude ter a percepção sensível que me traz muito mais do que vivo.
De repente, os figuras se levantam, "tudo muito lindo por aqui mas agora preciso ir."
Eu me inquieto por dentro, "ir pra onde? Fazer o quê e pra quê?". Me despeço cantando e mergulho pra curar mais uma ferida partida.
A dor na minha voz sai como veludo e acaricia a alma de quem já sofreu por amor.
Atraídos, outros embarcam e desembarcam, inúmeras vezes, molham seus pés, me tiram dali aos risos pra correr na beirada, se divertem com a incoerência das ideias grandiosas dentro de uma aparente pequenez existencial, prometem uma amizade eterna e verdadeira, "vamos! Venha comigo! Vamos viver essa vida, você é tão divertida!"
E então consigo responder "me deixe aqui, esse é o meu habitat... Lançaram-me aqui por tantas vezes que fiz daqui o meu lar. É melhor seguir o fluxo do que viver a contestar. Apenas vá, não tente me convencer e prometer o que não tem a entregar."
Já fiz a loucura de ir, já fiz a loucura de voltar... Sinto o cheiro das almas e tudo o que anseiam. Esses dons desenvolvidos por quem já se afogou e ressuscitou tantas vezes na própria solidão.
Um dia me disseram que o provedor da vida era excelente companhia, que me traria paz e redenção, uma alegria constante. Para tanto, bastava que eu o seguisse e descesse às águas.
Pensei, "fiz isso por toda minha vida, descer às águas é algo muito familiar. Será que ele também é só?".
No dia que desci as águas, olhei ao redor e vi todos distantes, "o que estão fazendo? Por que tudo isso os diverte mas não consigo me entusiasmar?"
Me faltou o ar, me faltou solitude, me faltou tempo pra olhar os quadros tortos na boca do poço.
"Preciso de meus pentes e meu canto presente. Estou morrendo por não colocar em melodia a loucura que vejo aqui."
Corri para a área mais isolada daquele lugar, cavei meu poço e mergulhei sozinha por lá. Chorei tanto que o poço transbordou águas ácidas. As águas tocavam seus tornozelos mas ninguém se deu conta que estava queimando.
"Grande mestre provedor, suas águas são doces, já as minhas salgadas. Como faremos?"
Desse dia em diante, comecei a encontrá-lo em sonhos.
Sonhar certamente é melhor que viver.
E de fato, ele é excelente companhia, a melhor que já tive, além daquela que me gerou e criou na vida.
Em todos os encontros sorrimos e comemos. É o que o amor proporciona: comida e amor.
"Nunca consegui compreender a beleza da vida...", é o que digo, todas as vezes que conversamos nos sonhos.
Todas as vezes que me permiti sair desse poço pra enxergar essa beleza, fui forçada a constatar toda amargura da existência. Mentiras, enganos, luxúria e egoísmo. Mas aqui, dentro de uma fração, vivo o meu sonhar e isso me alegra, me fascina.
Acompanho o mover das águas com o vento a soprar e essas são minhas companhias, além do meu canto.
E quando a noite chega, eu sonho com os pés sobre a terra e os cabelos ao vento. Eu corro entre as plantas, me visto de flores... Aparentemente só, mas tranquila o bastante para me sentir parte de tudo o que sinto.
É tão bom e tão distante que chego a questionar se não há por aí quem queira correr como bando. Mas seria quase impossível, já que passo mais tempo em alerta que aproveitando o momento. Dificilmente repouso tranquila em algum lugar.
Vez ou outra, me deitei entre paredes azuis, em frente às cortinas de planta, a TV desligada e o girassol na parede e por poucos instantes consegui respirar e sentir o silêncio do amor. Como se os alertas desligassem e dentro de mim só houvesse respirar.
Quando esse estágio é encontrado é quase possível compreender o sentido da vida.
Mas pra mim, pouco duraram... As paredes azuis viraram pânico, as cortinas de planta, um show de horror e desprezo, a TV desligada começou a noticiar desgraças até fora da tomada, e o girassol na parede... Nossa! O girassol na parede feriu meus braços, me puniu, arrancou-me sangue... Sabe-se lá porquê!
Sei vestir as pernas, sei despir a alma mas não entendo nada sobre a arte de amar. Não conheço na terra alguém que se banhe tão intensamente como eu em minhas lágrimas, em meus cálices, em meu sangue.
Por isso eu continuo cantando, atraio amigos, prestígios, aplausos. Mas sou apenas uma atração e de repente todos voltam pra casa.
E aqui eu permaneço completa, só e sorridente mas nunca contente.
Pra sempre.
Minha canção sempre repete o refrão "Não esqueça de respirar".
- Bea'Gio
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