Café das cinco III
Olá, solidão
Quanto tempo não falamos
Você nunca mais voltou desde que o conheci
Ele não te deixa aproximar...
Hoje vim te procurar pra dizer:
"Meus dias sem você são aterrorizantes
Pois o amor é um álibi perfeito para o bom humor
Porém não há prazer em amar
É mais solitário que a tua companhia
Como se fossem fantasmas
Como se as torres fossem de areia
E os sorrisos, pinturas de Dali
Como se as aves no céu fossem traços do teu pincel
Como se o sentir todo fosse devorado
Pelos giros molhados da linda mulher que dança em sua tela"
Eu te disse tudo isso e me responde apenas:
"Você veio a mim tão fugaz
Extraiu de mim tudo tão depressa Tornou-se só e tão completa
Agora seja eterna"
Eu gritei pela tua escultura
Você me lapidou assim bela
De olhar profundo, de mente insana
A escultura ganhou vida
Que estremece vidas incertas
Porque sim, eu o sou
Peço perdão ao que te inspirou
Quem me cedeu ao mundo
Já sabia que eu seria por inteira
Inteiramente amor
Inteiramente dor
Inteiramente o outro
Inteiramente louca
Inteiramente sã
Inteiramente flor
Inteiramente espada
Inteiramente arte
Inteiramente realidade
Inteiramente inquieta
Inteiramente selva
Inteiramente abraço
Inteiramente alerta
E que me perdoem os que não entendem porque não lamento
Meu lamento é o silêncio
São os ossos atenuados do meu pescoço
Enrijecidos enquanto ergo meu olhar e minha cabeça
Porque meus olhares e risos são pra sempre meus
E serão seus até quando eu quiser.
Eu sou aquela pecadora
A ser apedrejada antes dele chegar
E sou aquela que dança com corações milagreiros
Sou aquela criticada por despejar perfumes, lágrimas e meus cabelos
Ou amada ou odiada por inteiro
Porque o sou sem medo.
Porque você me serviu o café e ele o banquete
Você me contou segredos e ele revelou meus anseios
Porque você me lapidou, solidão
Mas ele me amou sem receios.
Comentários
Postar um comentário