Café das cinco II
Na casa dela, o
relógio brega da parece marca cinco horas em ponto, o sol se veste, mas ainda se
derrama tímido pelas frestas da cortina.
Ela espera pela
mulher, não possui tv nem qualquer modernidade, apenas sente-se relaxada, a
vontade e entretida com o nada.
A campainha toca:
- Seja bem-vinda,
amiga! Que bom revê-la novamente!
- Podia jurar que nunca mais a veria novamente...
- Que ironia, não é?
Sente-se, vamos conversar um pouco sobre isso.
-Claro, com licença... (senta-se
no sofá)
-Diga-me: Por que me
aparece na porta de mala e cuia? Virou lésbica? Decepção?
- Apenas me encontrei...
-Então eu faço mais
alguém feliz?
- Talvez.
- Talvez? Que resposta
cruel! Você deve tê-la ouvido muito!
- Sim, ouvi silêncio e eu mesma me respondi com talvez...
- Quem anda me
copiando?
- Pois é, solidão por solidão, prefiro a original. Eis-me
aqui.
- Triste! Odeio plágios...
Enfim: traição?
- Incompreensão. Relevância... Sinto que não existo mais!
- Ainda não! Ufa, por
pouco ein! Ainda bem que sua língua é grande. Amo sua transparência.
-Grande foi minha esperança...
- Morreu de novo?
-Morreu. Agora, sei lá... Tanto faz!
- Ixi! “Tanto faz”,
outra resposta cruel... Quem foi cruel com você criança?
- Um santo aí! Na verdade, um homem vestido de santo!
- Nossa... Mas, que
ingenuidade! Você não aprendeu nada? Não existe santo e não existe homem...
- O que devo fazer?
- Oras! O que quer
fazer? Pirraça ou graça?
- Não sei... Quero mudar...
- Veio até minha casa
pra mudar?
-Vim!
- Acha que sou o quê?
Feiticeira?
- Não, sei que é sábia e feliz...
-Hipocrisia! Meu riso
é charme, apenas.
- Então você é triste!?
-Não, sou cruel!
-Por quê?
- Tanto faz meu estado
emocional... Talvez esteja feliz, talvez triste, e daí?
-Entendo. Quero ser assim.
-Cruel?
-Sim.
-Então seja!
- Como? Quero aprender! Coração de gelo, sem mágoas, repleta
de falsidade... Infeliz, incrédula, viciada.
- Tem certeza de que é
isso mesmo que quer?
-Tenho.
-Fatos recentes...
Acho melhor você tomar um chá.
-Agora eu tomo café.
-Ótimo!
Traz uma xícara de
café e entrega a mulher:
-Então... Onde está o másculo
arrogante que te decepcionou?
- Não faço a mínima ideia! Talvez nunca esteve onde deveria
estar... Quero abrir mão.
- Então abra as mãos...
(interrompe-a bruscamente) Não! Abra
as mãos agora, sem deixar a xícara sobre a mesinha...
Mulher olha fixamente
espantada:
-Faça!
Mulher abre as mãos e
a xícara cai esparramando café por todo o tapete da sala:
-Entendeu?
-Entendi... Preciso ir!
-Precisa mesmo.
-Quer ajuda para limpar?
- Não, obrigada!
Estava mesmo na hora de trocar esse tapete, ele não combina mais com a sala. Amarelo
é fúnebre demais!
-Também acho. Até mais, amiga!
-Até, menina-mulher!
Cuide-se!
Virando as costas diz a si mesma:
– Que orgulho dela! A
cada dia mais parecida comigo...
Sentando-se:
- Que orgulho de mim! A
cada dia mais parecida com ela...
Pausa.
O relógio brega na
parede da sala marca cinco horas em ponto.
- Que horas ela vai
chegar?

Que nunca faltem tapetes sem uso a cada hora do relógio para um bem vindo tic tac s2
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