Bibelô

Você passou a vida toda penteando meus cabelos, deixava-os macios como seda, limpava meu rosto com o guardanapo da mesa quando eu chorava por não querer comer, e me abraçava, me contando tudo quando você ficava triste, passava em meu pescoço aquele perfume suave que você usava, a noite me abraçava contra o peito sob as cobertas e dormia tranquila, suspirava. Pela manhã, dava-me um beijinho suave e me sentava em sua cama pra que eu te esperasse o dia todo, até o cair da tarde. O tempo foi passando, as diversões mudaram, você mudou, ficou mais rueira, extrovertida, seus amigos é que vinham no quarto, deitavam no seu abraço, afogavam contra o seu peito, e é pro telefone que você chorava suas mágoas... O que queria que eu fizesse? Aquela tarde, foi a que mais me magoou, você entrou chorando, seu rosto estava vermelho e você ofegava furiosa, enquanto juntava algumas tralhas, eu chorava, implorando pra que viesse ter comigo mais um daqueles momentos mágicos que nós tínhamos, mas você não escutava, pois as batidas do seu coração pareciam arranhões numa lousa. 
Então fui puxada saco adentro, gritando pra que não fizesse isso e me deixasse brilhando em seu quarto pra sempre. Pensava: "Se não me quer mais, pelo menos me deixe partir, encontrar minha felicidade, ser amada por outra pessoa..." .
Tudo se tranquilizou e naquela escuridão eu vivi anos, de lembranças nossas, essas é que me faziam estar alegre ali e ter a esperança de um dia você me reencontrar e me abraçar. As vezes ouvia sua voz, muito rapidamente e logo partia. 
O tempo passou e certo dia você abriu aquele saco, me puxou pelos cabelos, sua pele estava enrugada, um lado do seu rosto tremia, você disse: "Ué! Onde esta a outra metade do seu rosto, meu amor? Como fui malvada com você...". Você tinha um sorriso inocente e uma voz tranquila, aparentava estar doente, mas parecia que sua doença não tinha importância pra você.
Levou-me para o quarto, mas não era o seu quarto, tinha uma cama enorme e uma penteadeira com vários porta-retratos, com muitas crianças, jovens e um senhor muito bonito... Você colou o meu rostinho, me limpou inteira, penteou meus cabelos e me levou ao espelho. Eu estava tão envelhecida quanto você, tão magoada quanto você, tão experiente quanto você, tão inocente e carente quanto você, nosso olhar era o mesmo e até nossa face... Você disse: "Meu amor, você esta linda!"
Sentou-me em sua cama gigante, estava tão feliz, tão cheia de vida, empolgada! Esperei por você o dia inteiro e todas as noites éramos nós duas naquela cama enorme mais uma vez... Você penteava o meu cabelo as vezes, não dormíamos abraçadas, você não chorava mais e eu também não, mas te esperava todos os dias cheia de uma alegria absurda de ter a minha esperança correspondida depois de tantos anos.
Então, um final de tarde você não voltou, nem no outro, nem no seguinte... Eu chorei.
Uma garotinha entrou no seu quarto, ela tinha o rosto triste mas os olhos brilhavam, cheios de vida, ela me puxou contra o peito e chorou: "Eu vou cuidar de você, a vovó esta no céu e eu vou cuidar de você agora, não precisa chorar ela esta bem e te ama muito! Vai dar tudo certo, confia em mim". A menina saiu do quarto me levando pelas mãos.

Beatriz Giomarelli

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